Brasil vai às ruas contra a PEC da blindagem e o PL da Anistia

Joeline Rodrigues

Summary: Mass turnout across Brazil, especially by the popular classes, to defend democracy — Editors
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Um multidão lotou as ruas Brasil neste domingo contra a PEC da blindagem e o projeto de lei de Anistia aos golpistas de Norte ao Sul do país. Foram registradas manifestações em mais de 40 cidades, sobretudo nas diversas capitais, com a participação de diversos movimentos sociais sindicais, indígenas, quilombolas, que se levantaram pela soberania do país e a defesa da democracia frente a articulação golpista orquestrada por Bolsonaro e a extrema direita parlamentar, capitaneada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), que o apoia e na calada da noite votou em tutela de urgência em sessão extraordinária, no último 17 de setembro, o projeto 2162/2023 que garante anistia aos golpistas, após a condenação de Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal e quando havia em pauta para ser votado o fim da escala 6×1 e o projeto para zerar o Imposto de Renda para o trabalhador.

Os dois projetos articulados – PEC da Blindagem e PL da Anistia- blindariam criminosos que utilizariam o foro privilegiado parlamentar de serem processados e investigados por seus crimes, como ocorreu entre 1988 e 2001, após o fim da ditadura militar no Brasil que, na época, tinha maioria dos ministros do STF – Supremo Tribunal Federal indicados pelo regime, objetivava proteger os parlamentares e evitar um novo golpe de Estado, e portanto, optaram por anistiar os envolvidos no regime. Porém, essa “proteção” aos parlamentares gerou diversas contradições pela impunidade aos seus atos de corrupção, e em 2001 a sociedade civil indignada conformou uma mobilização que resultou na aprovação pelo Congresso Nacional pacote ético que derrubou a blindagem dos parlamentares, os quais hoje podem ser investigados pelo STF sem a necessidade de autorização prévia do Congresso Nacional.

Dessa forma que o pacote da bandidagem atual gerou uma onda de indignação na sociedade civil, artistas e celebridades, influenciadores, reconectando todas e todos e mobilizou um dos maiores atos históricos dos últimos tempos no Brasil que tem um grande significado histórico para o país porque acerta as contas com o passado sombrio da ditadura que, ao anistiar os militares, permitiu com a impunidade que figuras como Bolsonaro continuassem fomentando o ideário fascista, colonialista escravocrata e pudessem livremente disputar os espaços da política e a hegemonia nacional.

Nesse movimento, a esquerda brasileira retomou o protagonismo das ruas contando com a participação de Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil que foram exilados durante a ditadura no Brasil, em 1968, e hoje, 57 anos depois, cantaram juntos com a multidão em Copacabana, no Rio de Janeiro, músicas históricas que emocionaram e fizeram arrepiar a todas e todos e que traduzem o sentimento de indignação, raiva digna por tudo que o Brasil vem enfrentou vem enfrentando, como viver a pandemia sob o governo Bolsonaro, além de toda tentativa de golpe, mas também o forte desejo de superar e forjar novos tempos, como diz as letras cantadas em uníssono:

“Pai, afasta de mim este cálice” (Chico Buarque e Milton Nascimento, 1978)

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia” (Chico Buarque, 1978)

À noite uma multidão continuava em Copacabana, cantando um samba de Beth Carvalho (1978) que diz muito sobre o sentimento brasileiro de indignação que transmuta tudo em energia de força e alegria em tom de carnaval:

“É, o teu castigo

Brigou comigo, sem ter porquê

Eu vou festejar, vou festejar!

O teu sofrer, o teu penar”

 

Essa mesma vibração foi sentida em São Paulo na Avenida Paulista, junto com artistas como Emicida, Otto, Nando Reis que ao lado de Guilherme Boulos (Psol), a multidão  estendeu a bandeira do Brasil em resposta ao 7 de setembro – Dia da Independência do Brasil, em que os patriotas bolsonaristas tomaram a Avenida Paulista e estenderam a bandeira do EUA- demonstrando que a soberania nacional é incompatível com subalternidade ao imperialismo, mas significa lutar pelo democracia do próprio país e os interesses do povo.

Em Salvador, Daniela Mercury junto de Wagner Moura – ator e diretor de diversos filmes críticos como o BOPE que denunciava a articulação do crime organizado com a política – em um trio elétrico embalaram a multidão ao som do Axé baiano e, ao lado da cantora, Wagner Moura discursou e criticou a PEC da blindagem e sob aplausos e ao som do coro “Sem anistia”, puxado pela multidão, afirmou: “Aqui a extrema direita não se cria” e continuou dizendo que “foi por conta da antiga anistia que tivemos esse governo Bolsonaro. Isso não pode acontecer nunca mais”.

O recado das ruas foi dado e em menos de um dia após as manifestações, Hugo Motta (Republicanos -PB) – presidente da Câmara dos Deputados – recua e afirma que essas pautas “tóxicas” devem ser retiradas da frente, ainda que siga com o projeto para submissão ao Senado. O que demonstra que a força popular das ruas continua movimentando o pêndulo da história e o populismo da extrema direita brasileira está mostrando seus limites, mas há que se aglutinar força, organização e a resistência nas ruas e na disputa política para em 2026 tentar desestruturar a extrema direita do Congresso Nacional e avançar com o poder popular para fortalecer a jovem democracia do país.

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